Meditação diária de Falar com Deus, Francisco Fernández Carvajal
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Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017 





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Meditação diária de Falar com Deus

TEMPO COMUM. DÉCIMA NONA SEMANA. SEXTA‑FEIRA

62. MATRIMÔNIO E VIRGINDADE

– O matrimônio, caminho vocacional. Dignidade, unidade, indissolubilidade.

– A fecundidade da virgindade e do celibato apostólico.

– A santa pureza, defensora do amor humano e do divino.

I. O EVANGELHO DA MISSA1 apresenta‑nos uns fariseus que se aproximaram de Jesus e lhe fizeram uma pergunta para pô‑lo à prova: É lícito a um homem repudiar a sua mulher por um motivo qualquer? Era uma questão que dividia as diferentes escolas de interpretação da Escritura. O divórcio era comumente admitido; a questão que propõem a Jesus refere‑se à casuística sobre os motivos. Mas o Senhor serve‑se dessa pergunta banal para entrar no problema de fundo: a indissolubilidade. Cristo, Senhor absoluto de toda a legislação, devolve ao matrimônio a sua essência e dignidade originais, tal como foi concebido por Deus: Não lestes – responde Jesus – que no começo o Criador criou um homem e uma mulher, e disse: Por isso deixará o homem pai e mãe, e juntar‑se‑á com a sua mulher, e os dois serão uma só carne? Por isso já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu o homem não separe [...].

O Senhor proclamou para sempre a unidade e a indissolubilidade do matrimônio acima de qualquer consideração humana. Existem muitas razões em favor da indissolubilidade do vínculo matrimonial: a própria natureza do amor conjugal, o bem dos filhos, o bem da sociedade... Mas a raiz profunda do matrimônio indissolúvel está na própria vontade do Criador, que o fez assim: uno e indissolúvel. Este vínculo é tão forte que só a morte o pode romper. São Francisco de Sales emprega uma imagem muito expressiva para explicá‑lo: “Quando se colam duas peças de madeira de abeto, se a cola é fina, a união chega a ser tão sólida que será mais fácil quebrar as peças noutros lugares do que no lugar da junção”2; assim é o matrimônio.

Para levar adiante esse compromisso, é necessário ter consciência da vocação matrimonial, que é um dom de Deus3, de tal forma que a vida familiar e os deveres conjugais, a educação dos filhos, o esforço por sustentar e melhorar economicamente a família são situações que os esposos devem sobrenaturalizar4, vivendo através delas uma vida de entrega a Deus; devem estar persuadidos de que Deus os assiste para que possam cumprir adequadamente esses deveres que configuram a situação em que devem santificar‑se.

Pela fé e pelos ensinamentos da Igreja, nós, cristãos, adquirimos um conhecimento profundo e completo do matrimônio, da importância de que a família se reveste para cada homem, para a Igreja e para a sociedade. Temos, portanto, a grande responsabilidade de defender essa instituição humana e divina, principalmente nuns momentos históricos em que se lançam contra ela ataques incessantes nos meios de comunicação de massas: nas revistas, nos jornais que dão especial publicidade aos escândalos mais chamativos, nos seriados de televisão que alcançam grande audiência e vão pouco a pouco deformando a consciência do público... Ao difundirmos a reta doutrina neste ponto – a da lei natural iluminada pela fé –, fazemos um bem enorme a toda a sociedade.

Meditemos hoje na nossa oração se defendemos a nossa família dessas agressões externas, e se nos esmeramos em viver delicadamente algumas virtudes que contribuem para a solidez da família: o respeito mútuo, o espírito de serviço, a amabilidade, a compreensão, o otimismo, a atenção vigilante para com todos...

II. A DOUTRINA DO SENHOR a respeito da indissolubilidade e dignidade do matrimônio foi tão chocante aos ouvidos de todos que até os próprios discípulos lhe disseram: Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, não é vantajoso casar‑se. Jesus aproveitou esse comentário para proclamar o valor do celibato e da virgindade por amor do Reino dos céus, a entrega plena a Deus, indiviso corde5, que é um dos dons mais preciosos da Igreja.

Os que receberam a chamada para servir a Deus no matrimônio santificam‑se precisamente mediante o cumprimento abnegado e fiel dos deveres conjugais, que para eles se tornam caminho certo de união com Deus. Os que receberam a vocação para o celibato apostólico encontram na entrega total a Deus e aos outros por Deus a graça necessária para viverem felizes e alcançarem a santidade no meio dos seus afazeres temporais, se ali o Senhor os procurou e deixou: são cidadãos correntes, com uma vocação profissional definida, que se entregam a Deus e ao apostolado sem limites e sem condições. É uma chamada que revela uma especial predileção divina e para a qual o Senhor dá ajudas muito determinadas. A Igreja cresce assim em santidade pela fidelidade desses cristãos que correspondem à chamada peculiar que o Senhor lhes faz. É uma entrega plena que “sempre teve na Igreja um lugar de honra, como sinal e estímulo de caridade, e fonte peculiar de fecundidade espiritual no mundo”6.

A virgindade e o celibato não só não contradizem a dignidade do matrimônio, como a pressupõem e confirmam. O matrimônio e a virgindade “são dois modos de exprimir e de viver o único mistério da Aliança de Deus com o seu povo”7. E se não se estima a virgindade, não se compreende em toda a sua profundidade a dignidade matrimonial. Por sua vez, “quando não se considera a sexualidade humana como um grande valor dado pelo Criador, perde significado a renúncia pelo Reino dos céus”8. “Quem condena o matrimônio – dizia já São João Crisóstomo – priva também a virgindade da sua glória; e quem o louva torna a virgindade mais admirável e luminosa”9.

O amor vivido na virgindade ou no celibato apostólico é a alegria dos filhos de Deus, porque lhes permite ver o Senhor neste mundo de um modo novo, contemplar o rosto divino através das criaturas. É para os cristãos e para os não crentes um sinal luminoso da pureza da Igreja. É fonte de uma especial juventude interior e de uma eficácia gozosa no apostolado. “Embora tenha renunciado à fecundidade física, a pessoa virgem torna‑se espiritualmente fecunda, pai e mãe de muitos, cooperando na realização da família segundo o desígnio de Deus. Os esposos cristãos têm, portanto, o direito de esperar das pessoas virgens o bom exemplo e o testemunho da fidelidade à sua vocação até à morte. Assim como para os esposos a fidelidade se torna às vezes difícil e exige sacrifício, mortificação e renúncia, o mesmo pode acontecer às pessoas virgens. A fidelidade destas, mesmo nas eventuais provações, deve edificar a fidelidade daqueles”10.

Deus, diz Santo Ambrósio, “amou tanto esta virtude, que não quis vir ao mundo senão acompanhado por ela, nascendo de Mãe virgem”11. Peçamos com freqüência a Santa Maria que haja sempre no mundo pessoas que correspondam a esta chamada concreta do Senhor; que saibam ser generosas para entregarem ao Senhor um amor que não compartilham com ninguém e que lhes permite dar‑se sem medida aos outros.

III. PARA PODERMOS REALIZAR a nossa vocação, é necessário que vivamos a santa pureza, de acordo com as exigências do nosso estado de vida. Deus dá as graças necessárias aos que foram chamados ao matrimônio, bem como àqueles a quem pediu todo o coração, para que uns e outros sejam fiéis e vivam essa virtude, que não é a principal, mas é indispensável para termos acesso à intimidade de Deus.

Pode acontecer que haja ambientes em que a castidade seja uma virtude desvalorizada e que muitos pensem que vivê‑la com todas as suas conseqüências é algo incompreensível ou utópico. Meditemos nestas palavras de São João Crisóstomo, que parecem escritas para muitos cristãos dos nossos dias: “Que quereis que façamos? Que subamos aos montes e nos tornemos monges? E isso que dizeis é o que me faz chorar: que penseis que a modéstia e a castidade são próprias dos monges. Não. Cristo estabeleceu leis comuns a todos. E assim, quando disse: Quem olhar com cobiça para uma mulher (Mt 5, 28), não falava com o monge, mas com o homem da rua [...]. Eu não te proíbo que te cases, nem me oponho a que te divirtas. Só quero que o faças com temperança, não com impudor, não com culpas e pecados sem conta. Não estabeleço como lei que tenhais que viver nos montes e desertos, mas que sejais bons, modestos e castos, mesmo vivendo nas cidades”12.

Que enorme bem podemos realizar no mundo vivendo delicadamente esta santa virtude! Levaremos a todos os lugares que freqüentamos o nosso próprio ambiente, com o bonus odor Christi13, o bom aroma de Cristo, que é próprio das almas fortes e enérgicas que vivem a castidade.

Trata‑se de uma virtude que está rodeada de outras que chamam pouco a atenção, mas que definem um modo de comportamento sempre atraente. Assim são, por exemplo, os detalhes de modéstia e de pudor no vestir, no asseio, no esporte; a recusa clara e sem paliativos de participar em conversas que não condizem com um cristão e com qualquer pessoa de bem, o repúdio aos espetáculos imorais, o cuidado em guardar a vista com naturalidade pela rua, etc. Quem vive com esmero essas virtudes “menores” terá assegurado em grande parte a virtude da pureza, pois também neste campo o que é grande depende do que é pequeno.

Lembremo‑nos por fim de que a virtude da pureza, tão importante para uma eficaz ação apostólica no meio do mundo, é guardiã do Amor, do qual por sua vez se nutre e no qual encontra o seu sentido; protege e defende tanto o amor divino como o humano. Não pensemos que nos pede uma atitude repressiva, mas a abertura e a juventude de quem se entregou a um grande Amor.

(1) Mt 19, 3‑12; (2) São Francisco de Sales, Introdução à vida devota, 3, 38; (3) cfr. Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, 11; (4) cfr. Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 23; (5) 1 Cor 7, 33; (6) Conc. Vat. II, op. cit., 42; (7) João Paulo II, Exort. Apost. Familiaris consortio, 22‑XI‑1981, 16; (8) ib.; (9) São João Crisóstomo, Tratado sobre a virgindade, 10; (10) João Paulo II, op. cit.; (11) Santo Ambrósio, Tratado sobre as virgens, 1; (12) São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de São Mateus, 7, 7; (13) 2 Cor 2, 15.



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