Meditação diária de Falar com Deus, Francisco Fernández Carvajal
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Domingo, 24 de Julho de 2016 





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Meditação diária de Falar com Deus

TEMPO COMUM. DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO. CICLO C

39. APRENDER A PEDIR

– O sentido da nossa filiação divina deve sempre estar presente na nossa oração.

– Pedir bens sobrenaturais, e também bens materiais, se nos ajudam a amar a Deus.

– A súplica de Abraão.

I. JESUS RETIRAVA‑SE para orar, com freqüência, pela manhã cedo e a lugares afastados1. Os seus discípulos foram encontrá‑lo muitas vezes entregue a um diálogo cheio de intimidade e ternura com seu Pai do céu. E um dia, ao terminar a sua oração, disse‑lhe um dos seus discípulos: Senhor, ensina‑nos a orar2... É o que nós temos de pedir também: Jesus, ensina‑me de que modo relacionar‑me contigo, diz‑me como e que coisas devo pedir‑te... Porque às vezes – mesmo que venhamos cultivando a prática da oração há muitos anos – permanecemos diante de Deus como uma criança que a muito custo arranha meia dúzia de palavras mal aprendidas.

O Senhor ensinou‑lhes então o modo de rezar e a oração por excelência: o Pai‑Nosso. Os seus lábios devem ter pronunciado cada palavra dessa oração universal com um acento incomparável. E fez ver a confiança com que devemos dirigir‑nos a Deus ao mostrar‑lhe a nossa insuficiência radical, porque essa confiança é o fundamento de toda a verdadeira oração: Se algum de vós tiver um amigo, e for ter com ele à meia‑noite e lhe disser: Amigo, empresta‑me três pães, porque um amigo meu acaba de chegar a minha casa de uma viagem, e não tenho nada que oferecer‑lhe... Se ele não se levantar para dar‑lhos por ser seu amigo, certamente pela sua importunação se levantará e lhe dará quantos pães precisar.

Uma boa parte das nossas relações com Deus define‑se pela oração confiante. Somos filhos de Deus, filhos necessitados, e Ele só deseja dar‑nos o que lhe pedimos, e em abundância: E se algum de vós pedir um peixe a seu pai, porventura dar‑lhe‑á ele uma serpente? Ou se lhe pedir um ovo, dar‑lhe‑á porventura um escorpião?

O próprio Senhor se torna fiador da nossa oração: Todo aquele que pede, recebe; e aquele que busca, encontra; e a quem bate, abrir‑se‑lhe‑á. Não podia ser mais categórico. Só partiremos de mãos vazias se nos sentirmos satisfeitos de nós mesmos, se pensarmos que não precisamos de nada, porque nos contentamos com umas metas bem pequenas ou porque pactuamos com defeitos e fraquezas. Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos3.

Devemos recorrer ao Senhor no Sacrário como pessoas muito necessitadas diante dAquele que tudo pode: como recorriam a Jesus os leprosos, os cegos, os paralíticos... “Rezar – sublinhava João Paulo II, referindo‑se ao texto do Evangelho que comentamos – significa sentir a própria insuficiência através das diversas necessidades que se apresentam ao homem e que fazem parte da sua vida: a mesma necessidade de pão a que se refere Cristo, pondo como exemplo o homem que desperta o seu amigo à meia‑noite para lho pedir. Essas necessidades são muito numerosas. A necessidade de pão é, em certo sentido, o símbolo de todas as necessidades [...]”4.

A humildade de nos sentirmos limitados, pobres, carentes de tantos dons, e a confiança em que Deus é o Pai incomparável que está sempre atento aos seus filhos, são as primeiras disposições com que devemos recorrer diariamente à oração. “Se nós aprendermos no sentido pleno da palavra, na sua plena dimensão, a realidade Pai, teremos aprendido tudo [...]. Aprender quem é o Pai quer dizer adquirir a certeza absoluta de que Ele não poderá rejeitar nada. Tudo isto se diz no Evangelho de hoje. Ele não te rejeita nem mesmo quando tudo, material e psicologicamente, parece indicar que o faz. Ele não te rejeita nunca”5. Nunca deixa de nos atender. O sentido da nossa filiação divina e a consciência da nossa indigência e fraqueza devem estar sempre presentes no nosso trato com Deus.

II. TODO AQUELE que pede, recebe; e aquele que busca, encontra; e a quem bate, abrir‑se‑lhe‑á.

Antes de mais nada, devemos pedir os bens da alma, com desejos firmes de amar cada dia mais o Senhor: desejos autênticos de santidade no meio das circunstâncias em que nos encontramos. Também devemos pedir os bens materiais, na medida em que nos possam servir para alcançar Deus: a saúde, bens econômicos, etc.

“Peçamos os bens materiais discretamente – aconselha‑nos Santo Agostinho –, e tenhamos a certeza – se os recebemos – de que procedem de quem sabe o que nos convém. Pediste e não recebeste? Confia no Pai; se te conviesse, Ele to teria dado. Julga por ti mesmo. Tu és, diante de Deus, pela tua inexperiência das coisas divinas, como o teu filho diante de ti, com a sua inexperiência das coisas humanas. Aí tens o teu filho chorando o dia inteiro para que lhe dês uma faca ou uma espada. Negas‑te a dá‑lo e não fazes caso do seu pranto, para não teres que chorá‑lo morto. Agora ele geme, aborrece‑se e dá murros para que o coloques no teu cavalo; mas não fazes caso dele, pois sabes que, não sabendo montar, será derrubado e perderá a vida. Se lhe recusas esse pouco, é para lhe reservares tudo; negas‑lhe agora os seus insignificantes pedidos perigosos para que possa ir crescendo e possua sem perigo toda a fortuna”6. Assim faz o Senhor conosco, pois somos como o menino pequeno que muitas vezes não sabe o que pede.

Deus sempre quer o melhor; por isso, a felicidade do homem encontra‑se sempre na plena identificação com o querer divino, ainda que humanamente não o pareça; por esse caminho chegar‑nos‑á a maior das alegrias. Conta o Papa João Paulo II como o impressionou a alegria de um homem que encontrou num hospital de Varsóvia depois da insurreição daquela cidade durante a Segunda Guerra Mundial. Estava gravemente ferido e, no entanto, era notória a sua extraordinária felicidade. “Esse homem chegou à felicidade – comentava o Pontífice – por outro caminho, já que, a julgar visivelmente pelo seu estado físico do ponto de vista médico, não havia motivo para ser tão feliz, sentir‑se tão bem e considerar‑se escutado por Deus. E, no entanto, tinha sido escutado noutra dimensão da sua humanidade”7, naquela dimensão em que o querer divino e o querer humano se tornam uma só coisa.

O que devemos pedir e desejar é que se cumpra a vontade de Deus: Faça‑se a tua vontade assim na terra como no céu. E este é sempre o meio de acertar, o melhor caminho que podíamos ter sonhado, pois é o que foi preparado pelo nosso Pai do Céu. “Diz‑Lhe: – Senhor, nada quero fora do que Tu quiseres. Não me dês nem mesmo aquilo que te venho pedindo nestes dias, se me afasta um milímetro da tua Vontade”8. Para que hei de querê‑lo, se Tu não o queres? Tu sabes mais. Faça‑se a tua vontade...

III. A PRIMEIRA LEITURA9 da Missa mostra‑nos outro exemplo comovente: a súplica de Abraão, o amigo de Deus, em favor daquelas cidades que tanto tinham ofendido o Senhor e que iam ser destruídas. Perderás tu o justo com o ímpio? Se houver cinqüenta justos na cidade, perecerão todos juntos? E não perdoarás aquele lugar por causa de cinqüenta justos, se aí os houver? Abraão tentará salvar as cidades, “regateando” com Deus, em quem confia e de quem se sente verdadeiramente querido. E invoca diante de Deus o imenso tesouro que são alguns justos, alguns santos.

O Senhor alegra‑se tanto com os justos, com os que o amam e portanto cumprem a sua Vontade, que estará disposto a perdoar milhares de pecadores que cometeram inúmeras ofensas contra Ele, desde que se encontrem cinqüenta, quarenta..., dez justos na cidade. O amor e a adoração desses poucos é tão agradável a Deus que será capaz de esquecer as iniqüidades daquelas cidades.

É um ensinamento claro para nós, que queremos seguir o Senhor de perto – com obras! – e contar‑nos entre os seus amigos íntimos, pois às vezes pode insinuar‑se numa alma a tentação de perguntar‑se: de que adianta esforçar‑me por cumprir com fidelidade a vontade de Deus, se são tantos os que o ofendem e os que vivem como se Ele não existisse ou como se não merecesse nenhum interesse? Deus tem outras medidas, muito diferentes das humanas, a respeito da utilidade de uma vida. Um dia, no fim dos tempos, Ele nos fará ver a enorme eficácia, que supera o tempo e a distância, daquela viúva que gastou os seus dias em levar para a frente a família; o valor para toda a Igreja da dor daquele doente que ofereceu diariamente ao Senhor os seus sofrimentos; o “preço” de uma hora de estudo ou de trabalho convertida em oração...

Com uma medida que só a misericórdia divina conhece, teriam bastado dez justos para Deus salvar Sodoma e Gomorra. As obras desses justos, colocadas numa balança, teriam pesado mais que todos os pecados daqueles milhares de infelizes pecadores. Nós, quando procuramos ser fiéis ao Senhor, devemos experimentar a alegria de saber que a nossa entrega, apesar dos muitos defeitos que nos afligem, é a alegria de Deus no mundo. Ele está pronto a escutar a nossa oração. E todos os dias devemos pedir pela sociedade que nos rodeia, pois parece afastar‑se cada vez mais de Deus. “A oração de Abraão – comenta o Papa João Paulo II – é muito atual nos tempos em que vivemos. É necessária uma oração assim, para que todo o homem justo trate de resgatar o mundo da injustiça”10.

Terminemos a nossa oração fazendo o propósito de aprender a orar, de aprender a pedir como filhos. Temos de recorrer ao Senhor com muita freqüência, pois nos encontramos tão necessitados como aqueles que se juntavam à porta da casa onde Jesus se encontrava11, esperando receber dEle a saúde da alma e do corpo.

A Virgem nossa Mãe ensinar‑nos‑á a ser audazes na oração de petição. Pedimos‑lhe agora que nos ajude a conseguir com o nosso apostolado que em todos os ambientes – em cada cidade, em cada povoado, em cada lugar de trabalho e em todas as profissões – haja dez, vinte, cinqüenta... justos que sejam agradáveis a Deus e nos quais Ele possa apoiar‑se.

(1) Cfr. Mt 14, 23; Mc 1, 35; Lc 5, 16; 9, 18; (2) Lc 11, 1‑13; Evangelho da Missa do décimo sétimo domingo do TC, ciclo C; (3) Lc 1, 53; (4) João Paulo II, Homilia, 27‑VII‑1980; (5) ib.; (6) Santo Agostinho, Sermão 80, 2, 7‑8; (7) João Paulo II, op. cit.; (8) Josemaría Escrivá, Forja, n. 512; (9) Gen 18, 20‑32; (10) João Paulo II, op. cit.; (11) cfr. Mc 1, 33.



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