Meditação diária de Falar com Deus, Francisco Fernández Carvajal
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Sexta-feira, 28 de Abril de 2017 





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Meditação diária de Falar com Deus

TEMPO PASCAL. SEGUNDA SEMANA. SEXTA-FEIRA

59. MEIOS HUMANOS E MEIOS SOBRENATURAIS

– Fazer o que está ao nosso alcance, ainda que seja muito pouco. O Senhor dará o incremento.

– Otimismo sobrenatural: contar com o Senhor e com o seu poder.

– Os frutos do apostolado dependem da conjunção dos meios humanos e dos sobrenaturais. Somos instrumentos do Senhor para empreender obras que ultrapassam a nossa capacidade.

I. NO EVANGELHO DA MISSA1 lemos que Jesus se retirou para um lugar solitário na outra margem do lago de Tiberíades. Mas, como sabemos por outros relatos evangélicos, quando a multidão o percebeu, foi atrás dEle. O Senhor acolheu essas pessoas que o procuravam: falava-lhes do Reino de Deus e restabelecia a saúde dos enfermos2. Jesus compadece-se da dor e da ignorância.

O dia começava a declinar3. O Senhor falou longamente, desvendando os mistérios do Reino dos Céus, dando paz e consolo. Inquietos porque caía a noite e estavam num lugar isolado, os Apóstolos vêem-se na necessidade de prevenir o Mestre: Despede as turbas, para que vão pelas aldeias e povoados da vizinhança e procurem alimento e hospedagem, porque aqui estamos num lugar deserto4.

O Senhor surpreende-os com a pergunta que lhes faz: Onde compraremos pão para dar de comer a todos estes? Leva-os a tomar consciência de que não dispõem de meios econômicos: Filipe respondeu-lhe: Duzentos denários de pão não bastariam para que cada um recebesse um pedaço5. Os Apóstolos não deixam de fazer o que podem: encontram cinco pães e dois peixes. Mas havia uns cinco mil homens. Muita gente para o que tinham conseguido.

Às vezes, Jesus também nos faz ver que os problemas estão acima da nossa capacidade, que nada ou pouco podemos fazer diante de certas situações. E pede-nos que não olhemos muito para os recursos humanos, porque nos levariam ao pessimismo, mas que nos apoiemos mais nos meios sobrenaturais. Pede que sejamos sobrenaturalmente realistas; quer dizer, que contemos com Jesus e com o seu poder.

Não obstante, naquela ocasião, o Senhor serviu-se dos únicos víveres que os Apóstolos tinham podido conseguir. Não quis prescindir dos meios humanos, ainda que fossem poucos. Assim faz o Senhor na nossa vida: não quer que fiquemos de braços cruzados por serem nulos ou insuficientes os instrumentos com que contamos. Pede-nos fé, obediência, audácia, e que façamos sempre aquilo que está ao nosso alcance, ao mesmo tempo que nos apoiamos nEle, conscientes de que as nossas possibilidades são sempre muito pequenas. “Também o agricultor, quando vai sulcando o campo com o arado ou espalhando a semente, passa frio, suporta as incomodidades da chuva, olha para o céu e vê-o triste, e, não obstante, continua a semear. O que receia é deter-se a considerar as tristezas da vida presente e que depois passe o tempo e não tenha nada que ceifar. Não deixeis o trabalho para mais tarde, semeai agora”6, ainda que pareça que o campo não vai produzir nada. Não fiquemos na expectativa até termos nas mãos todos os meios humanos, não esperemos que todas as dificuldades desapareçam. No plano sobrenatural, sempre há fruto: o Senhor encarrega-se disso, o Senhor abençoa os nossos esforços e os multiplica.

II. QUANDO JESUS ENVIA os seus discípulos pela primeira vez em missão apostólica, diz-lhes: Não leveis nem ouro, nem prata, nem dinheiro nos vossos cintos, nem mochila para a viagem, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão; pois o operário merece o seu sustento7. Insta-os a partir sem demora. E para que desde o princípio aprendam a apoiar-se nos meios sobrenaturais, tira-lhes toda a ajuda humana.

Os Apóstolos partem assim – sem nada –, para que compreendam que as curas não serão deles, como também não o serão as conversões e milagres que realizarem; que as suas qualidades humanas não são suficientes para que as pessoas se disponham a receber o Reino de Deus. Não devem preocupar-se por não terem bens materiais e qualidades humanas extraordinárias; Deus proverá, na medida necessária, ao que lhes faltar.

Esta audácia santa acompanhou constantemente toda a ação apostólica dos homens de Deus ao longo dos séculos. Quantas coisas grandes não foram empreendidas sem que se dispusesse dos meios humanos mais imprescindíveis! Assim agiram os santos. Tiveram plena consciência de que “Cristo, enviado pelo Pai, é a fonte e a origem de todo o apostolado na Igreja”8. Quando o cristão está persuadido daquilo que Deus quer, deve deter-se apenas o mínimo necessário para passar em revista os meios humanos de que dispõe. “Nos empreendimentos de apostolado, está certo – é um dever – que consideres os teus meios terrenos (2 + 2 = 4).

Mas não esqueças – nunca! – que tens de contar, felizmente, com outra parcela: Deus + 2 + 2...”9

O mesmo ensinamento podemos tirar da primeira leitura da Missa de hoje, que nos traz as palavras de Gamaliel aos membros do Sinédrio, aconselhando-lhes o que devem fazer com os Apóstolos. Depois de evocar alguns exemplos de iniciativas puramente humanas – as insurreições de Teudas e Judas o Galileu –, fracassadas com a morte dos seus promotores, acrescenta: Agora, pois, eu vos aconselho: Não vos metais com esses homens; deixai-os ir. Se isso é projeto ou obra de homens, hão de dispersar-se; mas se provém de Deus, não podereis destruí-los e vos arriscareis a entrar em luta com o próprio Deus10. A nossa segurança e otimismo ao trabalharmos por Deus baseiam-se no fato de que Ele não nos abandona: Si Deus pro nobis, quis contra nos?

Se Deus está conosco, quem será contra nós?11

Contar sempre com Deus em primeiro lugar é bom sinal de humildade. Os Apóstolos aprenderam-no bem e puseram-no em prática na sua ação evangelizadora depois da Ressurreição. Quem é Apolo? Quem é Paulo? Simples servos por cujo intermédio abraçastes a fé [...]. Eu plantei, Apolo regou, mas foi Deus quem deu o crescimento12, dirá São Paulo.

III. POR OCASIÃO da primeira missão apostólica, o Senhor indicou claramente: Não leveis bolsa nem sandálias... Os Apóstolos compreenderam então que era Jesus quem dava a eficácia: as curas, as conversões e os milagres não se deviam às suas qualidades humanas, mas à força divina do seu Mestre.

Mas, antes da última viagem a Jerusalém, Jesus complementa o ensinamento daquela primeira missão. Pergunta-lhes: Quando vos mandei sem bolsa, sem mochila e sem sandálias, faltou-vos porventura alguma coisa? Eles responderam: nada. Mas agora, disse-lhes ele, quem tiver uma bolsa tome-a, e quem tiver uma mochila tome-a igualmente, e aquele que não tiver espada, venda a sua capa e compre uma13. Sendo os meios sobrenaturais o mais importante em toda a ação apostólica, o Senhor quer, no entanto, que mobilizemos todas as possibilidades humanas ao nosso alcance.

A graça não prescinde da natureza, e não podemos pedir a Deus ajudas extraordinárias quando, pelos canais ordinários, Ele nos colocou nas mãos os instrumentos de que necessitamos. Uma pessoa “que não se esforçasse por fazer o que está ao seu alcance, esperando todas as coisas do auxílio divino, tentaria a Deus”14, e a graça divina deixaria de atuar nela.

Daí a importância de cultivar as virtudes humanas, sustentáculo das sobrenaturais e meio necessário para aproximar os outros de Deus. Como havemos de apresentar a vida cristã de modo atraente se não somos alegres, trabalhadores, sinceros, bons amigos...? “Há alguns que, quando falam de Deus ou do apostolado, é como se sentissem a necessidade de se defender. Talvez porque não descobriram o valor das virtudes humanas e, pelo contrário, sobra-lhes deformação espiritual e covardia”15.

Na nossa ação apostólica, temos que valer-nos também de meios materiais, que são bons porque Deus os fez para que estivessem a serviço do homem: Todas as coisas são vossas – diz-nos São Paulo –: o mundo, a vida, a morte, o presente, o futuro16. E, ao mesmo tempo, seremos conscientes de que nos propomos um resultado que ultrapassa infinitamente a capacidade desses meios, pois trata-se de levar os homens a Cristo, de ajudá-los a converter-se e a começar uma vida nova.

Por isso, não esperaremos pelo momento de ter todos os meios (talvez nunca cheguemos a tê-los), nem deixaremos de executar certos trabalhos ou de começar outros novos. “Começa-se como se pode”17. E o Senhor nos abençoará, especialmente ao ver a nossa fé, a confiança que temos nEle e o interesse e esforço com que trabalhamos por obter tudo o que é necessário. Deus, se quisesse, poderia prescindir desses meios, mas conta, no entanto, com a nossa vontade de pô-los a seu serviço.

“Viste? – Com Ele, pudeste! De que te admiras? – Convence-te: não tens por que maravilhar-te. Confiando em Deus – confiando deveras! –, as coisas tornam-se fáceis. E, além disso, ultrapassa-se sempre o limite do imaginado”18.

(1) Jo 6, 1-15; (2) Lc 9, 11; (3) Lc 9, 12; (4) ib.; (5) Jo 6, 5-7; (6) Santo Agostinho, Comentário sobre o Salmo 125, 5; PL 36, 164; (7) Mt 10, 9-10; (8) Conc. Vat. II, Decr. Apostolicam actuositatem, 4; (9) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 471; (10) At 5, 38-39; (11) Rom 8, 31; (12) 1 Cor 3, 5-6; (13) Lc 22, 35-36; (14) São Tomás, Suma Teológica, 2-2, q. 53, a. 4, ad. 1; (15) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 37; (16) 1 Cor 3, 22; (17) cfr. Josemaría Escrivá, Caminho, n. 488; (18) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 123.



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