Meditação diária de Falar com Deus, Francisco Fernández Carvajal
Website de Francisco Fern�ndez Carvajal

Domingo, 26 de Junho de 2016 





Bookmark and Share
Dia anterior
Dia seguinte
Leituras do dia
Evangelho Dia
Obras
Editoriais
Alternativa






Meditação diária de Falar com Deus

TEMPO COMUM. DÉCIMO TERCEIRO DOMINGO. CICLO C

3. NÃO OLHAR PARA TRÁS

– Exigências da vocação: prontidão na entrega, desprendimento, não estabelecer condições.

– As provas da fidelidade.

– Virtudes que são a base de apoio do nosso caminho para Deus.

I. AS LEITURAS DA MISSA de hoje ajudam‑nos a meditar nas exigências que a nossa vocação traz consigo no serviço a Deus e aos homens. A primeira Leitura1 relata‑nos que Elias, que estava no Horeb, foi enviado por Deus para consagrar Eliseu como profeta de Javé. Elias desceu do monte e encontrou Eliseu arando. Passou ao seu lado e lançou‑lhe o manto em cima, indicando com esse gesto que Deus o tomava para o seu serviço. Eliseu correspondeu de forma imediata e plena, sem deixar atrás de si nada que o pudesse reter: Apanhou a junta de bois e imolou‑a. Com a lenha do arado, assou a carne e ofereceu‑a à sua gente. Depois levantou‑se e partiu com Elias...

No Evangelho da Missa2, São Lucas apresenta‑nos três homens que pretendem seguir o Senhor. O primeiro aproxima‑se de Jesus enquanto caminhavam, nessa última e longa viagem para Jerusalém e para o Calvário. As disposições deste discípulo parecem excelentes: Seguir‑te‑ei aonde quer que vás, diz ao Mestre. E, diante dessa atitude de generosidade, o Senhor quer fazer‑lhe ver claramente que tipo de vida o espera, se de verdade vier a segui‑lo, para que depois não se diga decepcionado. A missão de Cristo implica um ir e vir constante, uma atividade incessante no anúncio do Evangelho: o Senhor não tem onde reclinar a cabeça. Assim deve ser a vida daqueles que o seguem: devem estar desprendidos das coisas e a sua disponibilidade deve ser completa.

Quanto ao segundo, é o próprio Senhor que o chama: Segue‑me, disse‑lhe. Este possível discípulo que é convidado a seguir de perto o Senhor quer corresponder à chamada, mas não imediatamente; pensa numa ocasião mais oportuna, porque um assunto familiar o retém. Não percebe que, quando Deus chama, esse é precisamente o momento mais oportuno, ainda que aparentemente – vistas com olhos humanos as circunstâncias que rodeiam uma vocação – possam encontrar‑se razões que aconselhem a adiar a entrega.

Deus tem uns planos mais altos para o seu discípulo e para aqueles que, aparentemente, seriam prejudicados pela sua partida; dispôs tudo desde toda a eternidade para que essa escolha seja para o bem de todos. A disponibilidade dos que seguem o Senhor deve ser imediata, alegre, desprendida, sem condições3. Adiar a entrega a Cristo que passa ao nosso lado pode significar que, mais tarde, quando tentemos de novo alcançá‑lo, já não o encontremos. O Senhor continua o seu caminho. É grave ceder à “tentação do adiamento” quando Cristo nos pede uma dedicação total4.

Deus chama a cada um de nós numas circunstâncias peculiares. Vejamos hoje na nossa oração se estamos correspondendo com prontidão, com desprendimento, sem condições, à peculiar vocação com que Cristo nos chamou.

II. O TERCEIRO DISCÍPULO (apenas São Lucas o menciona) quis voltar para despedir‑se dos seus. Talvez desejasse passar uns dias, os últimos, com os seus familiares. Parecia já ter “posto a mão no arado”, estar decidido a seguir o Mestre. Mas a chamada do Senhor é sempre urgente, porque a messe é grande e os operários poucos. E há messes que se perdem por não haver quem as recolha. Entreter‑se, olhar para trás, pôr “senões” à entrega, tudo isso vem a dar no mesmo. Jesus disse‑lhe: Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o reino de Deus.

O novo trabalho daquele que é chamado é como o do arado palestino, que é difícil de manobrar, sobretudo na terra dura das margens do lago de Genesaré. Não se pode olhar para trás depois de se ter posto a mão no arado; não se pode olhar para trás depois da chamada do Senhor. Para sermos fiéis – e felizes –, é preciso que tenhamos sempre os olhos fixos em Jesus5, como o corredor, que, uma vez iniciada a corrida, não se distrai com nada: a única coisa que lhe interessa é a meta; como o agricultor que fixa um ponto de referência e depois dirige o arado para esse ponto. Se olha para trás, o sulco sai‑lhe torto.

Por vezes, a tentação de olhar para trás pode provir das limitações pessoais, ou do ambiente que se choca frontalmente com os compromissos contraídos, ou da conduta de pessoas que deveriam ser exemplares e não o são e, por isso mesmo, parecem querer dar a entender que ser fiel não é um valor fundamental da pessoa; noutras ocasiões, pode proceder da falta de esperança em face dos resultados medíocres na busca da santidade, apesar dos constantes esforços na luta contra os defeitos.

“Depois do entusiasmo inicial, começaram as vacilações, os titubeios, os temores. – Preocupam‑te os estudos, a família, o problema econômico e, sobretudo, o pensamento de que não consegues, de que talvez não sirvas, de que te falta experiência da vida.

“Eu te darei um meio seguro para venceres esses temores – tentações do diabo ou da tua falta de generosidade! –: «despreza‑os», tira da tua memória essas lembranças. Pregou‑o de modo terminante o Mestre há vinte séculos: «Não olhes para trás!»”6

Nessas situações, que podem saturar‑se de recordações e saudades, devemos olhar para Cristo e ouvi‑lo dizer‑nos ao ouvido: Sê fiel, continua para diante. E sempre que o nosso olhar se dirige para Jesus, avançamos um bom trecho no caminho. “Não há nunca motivo suficiente para olharmos para trás”7.

“Olhar para trás – comenta Santo Atanásio – significa ter pesares e voltar a experimentar o gosto das coisas do mundo”8. É a tibieza, que se introduz no coração dos que não têm os olhos postos no Senhor; é não ter o coração transbordante de Deus e das coisas nobres da vocação.

Olhar para trás, para aquilo que se deixou, para “aquilo que se poderia ter sido”, com nostalgia ou tristeza, pode significar em muitos casos quebrar a relha do arado contra uma pedra, ou pelo menos que o sulco, a missão que recebemos, nos saia torto... E na tarefa sobrenatural a que todos fomos chamados pelo Senhor, o que está em jogo são as almas.

Nós queremos ter olhos para olhar unicamente para Cristo e para todas as coisas nobres nEle. Por isso podemos dizer com o Salmo responsorial da Missa: O Senhor é a porção da minha herança. Ensinar‑me‑ás o caminho da minha vida, e encher‑me‑ás de júbilo na tua presença, de alegria perpétua à tua direita9. O “caminho da vida” é a nossa vocação, que temos de olhar com amor e agradecimento.

III. O ESPÍRITO SANTO, por meio de São Lucas, quis referir‑nos as palavras dirigidas a esses três discípulos para que as aplicássemos à chamada que recebemos de Deus.

O homem define‑se pela vocação recebida de Deus. Cada homem é aquilo para que Deus o criou, e a vida humana não tem outro sentido senão ir conhecendo e realizando livremente essa vontade divina. “O homem realiza‑se ou perde‑se conforme cumpre ou não na sua vida o desígnio concreto que Deus tem a seu respeito”10. Todos nós recebemos uma vocação, quer dizer, uma chamada para conhecermos a Deus, para o reconhecermos como fonte da vida; um convite para entrarmos na intimidade divina, para cultivarmos um relacionamento pessoal com Ele.

É uma chamada para colocarmos Cristo como centro da nossa existência, para tomarmos decisões tendo sempre em conta a sua vontade; uma chamada para reconhecermos os homens como pessoas e filhos de Deus, e, portanto, para superarmos de maneira radical o egoísmo a fim de vivermos a fraternidade e desenvolvermos uma ação apostólica incessante e fecunda. É, em última instância, uma chamada para entendermos que tudo isso se deve realizar na nossa própria vida, de acordo com as circunstâncias em que Deus nos colocou a cada um, e de acordo com a missão que nos cabe realizar pessoalmente11.

A fidelidade a essa vocação implica uma correspondência às chamadas que Deus nos vai fazendo ao longo da vida, como desdobramentos dessa Vontade divina a nosso respeito. Regra geral, trata‑se de uma fidelidade em face das pequenas coisas de cada dia, de amar a Deus no trabalho, nas alegrias e nas penas, de repelir com firmeza tudo o que signifique de alguma maneira olhar para onde não podemos encontrar o olhar de Cristo.

A fidelidade apóia‑se numa série de virtudes essenciais, sem as quais se tornaria difícil ou impossível seguir o Mestre: a humildade de reconhecer que – como aquela estátua colossal descrita no Livro de Daniel12 – temos os pés de barro; a prudência e a sinceridade, que são conseqüências da humildade; a caridade e a fraternidade, que nos impedem de encerrar‑nos em nós mesmos; o espírito de sacrifício, que conduz à temperança, à sobriedade, à luta contra o comodismo e o aburguesamento; e sobretudo o espírito de oração, que nos leva a tratar a Deus como um Amigo, como o Amigo de toda a vida. “Aquele que não deixa de avançar – ensina Santa Teresa –, ainda que demore, acaba por chegar. Abandonar a oração não me parece outra coisa senão perder o caminho”13.

Vamos dizer ao Senhor que queremos ser fiéis, que não desejamos outra coisa na vida senão segui‑lo de perto nas horas boas e nas más. Ele é o eixo em torno do qual gira a nossa vida, é o centro para onde se dirigem todas as nossas ações. Senhor, sem Ti a nossa vida perderia o seu centro de gravidade e se desfaria em mil pedaços.

Recorramos, ao terminarmos a nossa oração, à Virgem fidelíssima, nossa Mãe Santa Maria.

(1) 1 Rs 19, 16; 19‑21; (2) Lc 9, 57‑62; (3) F. Fernández Carvajal, O Evangelho de São Lucas, 5ª ed., Palabra, Madrid, 1988; (4) cfr. F. Suárez, A Virgem Nossa Senhora, Aster, Lisboa, 1957, pág. 126; (5) Hebr 12, 2; (6) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 133; (7) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, 3ª ed., Quadrante, São Paulo, n. 160; (8) Santo Atanásio, Vida de Santo Antão, 3; (9) Sl 15, 11; (10) J. L. Illanes, Mundo y santidad, Rialp, Madrid, 1984, pág. 108; (11) cfr. ib., pág. 110; (12) cfr. Dan 2, 33; (13) Santa Teresa, Vida, 19, 5.



Webmaster mail    Languages:   Deutsch   English   Español   Français   Italiano   Latviešu   Nederlands   Polski   Português   Slovenčina   Русский    Bookmark and Share