Meditação diária de Falar com Deus, Francisco Fernández Carvajal
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Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2014 





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Meditação diária de Falar com Deus

TEMPO DO ADVENTO. 22 DE DEZEMBRO

27. O MAGNIFICAT. A HUMILDADE DE MARIA

– Humildade de Maria. O que é a humildade.

– Fundamento da caridade. Frutos da humildade.

– Caminhos para alcançar esta virtude.

I. LEVANTAI, Ó PORTAS, os vossos dintéis; levantai-vos, ó pórticos antigos, para que entre o Rei da glória1.

A Virgem leva a alegria por onde passa: Mal a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de gozo em meu seio2, diz-lhe Santa Isabel referindo-se a João Batista, que crescia no seu ventre. Ao louvor de sua prima, a Virgem Maria responde com um belíssimo canto de júbilo:Minha alma engrandece o Senhor e meu espírito rejubila em Deus, meu Salvador.

O Magnificat contém a razão profunda de toda a humildade. Maria considera que Deus pôs os olhos na baixeza da sua escrava; por isso fez nela coisas grandes o Todo-Poderoso. Toda a sua vida transcorre neste tom de grandeza e de humildade: “Que humildade, a de minha Mãe Santa Maria! – Não a vereis entre as palmas de Jerusalém, nem – afora as primícias de Caná – à hora dos grandes milagres. – Mas não foge ao desprezo do Gólgota; ali está «juxta crucem Jesu», junto à cruz de Jesus, sua Mãe”3. Nunca procurou nenhuma glória pessoal.

A virtude da humildade, que tanto transparece na vida de Nossa Senhora, consiste na verdade4, no reconhecimento sincero do que somos e valemos diante de Deus e diante dos outros; consiste também em esvaziar-nos de nós mesmos e em deixar que Deus atue em nós com a sua graça. “É a rejeição das aparências e da superficialidade; é a expressão da profundidade do espírito humano; é a condição da sua grandeza”5.

A humildade é uma virtude que nada tem a ver com a timidez, com a pusilanimidade ou com a mediocridade. Não se opõe a que tenhamos consciência dos talentos recebidos, nem que usemos deles com um coração reto.

A humildade não nos amesquinha, mas dilata-nos o coração, pois descobre que tudo aquilo que de bom há em nós, tanto na ordem da natureza como da graça, pertence a Deus, porque todos recebemos da sua plenitude6. O Senhor é toda a nossa grandeza; nós, por nós mesmos, somos deficiência e fraqueza. Diante de Deus, encontramo-nos como devedores que não sabem como pagar7, e por isso recorremos a Maria como medianeira de todas as graças, Mãe de misericórdia e de ternura, a quem nunca ninguém recorreu em vão: “Abandona-te cheio de confiança no seu regaço materno, pede-lhe que te alcance esta virtude que Ela tanto apreciou; não tenhas medo de não ser atendido. Maria pedi-la-á a esse Deus que exalta os humildes e reduz os soberbos ao nada; e como Maria é onipotente junto de seu Filho, será ouvida com toda a certeza”8.

II. A HUMILDADE é o alicerce de todas as virtudes, e sem ela não há nenhuma que possa desenvolver-se. Sem a humildade, o resto é “como um montão muito volumoso de palha que teremos levantado, mas que ao primeiro sopro dos ventos cai e se desfaz. O demônio teme muito pouco essas devoções que não estão alicerçadas na humildade, pois sabe muito bem que poderá dar cabo delas quando lhe convier”9. Não é possível a santidade se não houver uma luta eficaz por adquirir esta virtude; nem sequer poderia haver uma autêntica personalidade humana.

A humildade é, de modo especial, alicerce da caridade. Torna-a possível e dá-lhe consistência: “A morada da caridade é a humildade”10, dizia Santo Agostinho. Na medida em que o homem se esquece de si próprio, pode interessar-se pelos outros e atendê-los. Muitas faltas de caridade foram provocadas por movimentos prévios de vaidade, orgulho, egoísmo, desejo de sobressair, etc. E as duas virtudes da humildade e da caridade “são as virtudes-mãe; as outras seguem-nas como os pintinhos seguem a galinha”11.

Quem é humilde não gosta de exibir-se. Sabe muito bem que não se encontra no lugar que ocupa para brilhar e receber elogios, mas para servir, para cumprir uma missão.Não te sentes no primeiro lugar [...]. Pelo contrário, quando fores convidado, senta-te no último12. E se se encontra nos primeiros lugares, ocupando uma posição de proeminência, sabe que “Deus lhe deu esse motivo de excelência para que sirva de proveito aos outros; o testemunho dos outros deve agradar-lhe somente na medida em que contribua para o bem alheio”13.

Devemos permanecer no nosso lugar (nas conversas com os amigos, na fábrica ou no escritório, na família, etc.), trabalhando de olhos postos em Deus e evitando que a ambição nos ofusque ou que, levados pela vaidade, a vida se converta numa corrida louca atrás de posições cada vez mais altas; posições para as quais talvez nem sirvamos e que mais tarde poderiam vir a humilhar-nos, criando em nós o profundo mal-estar de sentir que não ocupamos o lugar para o qual estamos dotados. Isto não se opõe a que correspondamos à chamada do Senhor e façamos render ao máximo os nossos talentos, com um grande espírito de sacrifício no aproveitamento do tempo.

Um homem humilde sente-se centrado e é feliz nos seus afazeres. Além disso, é sempre uma ajuda. Conhece as suas limitações e possibilidades, e não se deixa enganar facilmente pelas miragens da ambição. As suas qualidades são uma ajuda, maior ou menor, mas nunca um estorvo. Cumpre a sua função dentro do conjunto.

Outra manifestação de humildade é evitar qualquer juízo negativo sobre os outros. O conhecimento da nossa fraqueza não nos permitirá “um mau pensamento acerca de ninguém, mesmo que as palavras ou obras do interessado dêem motivo para assim julgarmos razoavelmente”14. Olharemos para os outros com respeito e compreensão.

III. PARA CHEGARMOS à humildade, devemos em primeiro lugar desejá-la ardentemente, estimá-la e pedi-la a Deus. E depois aproveitar todas as ocasiões para progredir nela: fomentaremos a docilidade aos conselhos recebidos na direção espiritual e lutaremos por levá-los à prática; receberemos com sincera gratidão a correção fraterna que nos fazem com toda a delicadeza; aceitaremos em silêncio, por amor a Deus, todas e quaisquer humilhações; obedeceremos com rapidez e de todo o coração àqueles a quem devemos obediência; e, sobretudo, praticaremos a caridade, em detalhes constantes de serviço alegre aos outros.

Jesus é o exemplo supremo de humildade. Nunca ninguém teve uma dignidade comparável à sua, e, no entanto, ninguém serviu os homens com tanta solicitude: Eu estou no meio de vós como quem serve15. Imitando o Senhor, aceitaremos os outros tal como são e passaremos por alto muitos detalhes que talvez sejam aborrecidos, mas que, no fundo, quase nunca têm verdadeira importância.

Prestaremos assim pequenos serviços na convivência diária, sem nos orgulharmos por isso e sem pedir nada em troca; e aprenderemos de Jesus e de Maria a conviver com todos, a saber compreender os outros, mesmo com os seus defeitos. Procurando ver os outros como o Senhor os vê, ser-nos-á fácil acolhê-los como Ele os acolhe.

Terminamos a nossa oração neste dia contemplando a nossa Mãe Santa Maria, que nos alcançará do seu Filho esta virtude de que tanto necessitamos. “Olhai para Maria. Jamais criatura alguma se entregou com tanta humildade aos desígnios de Deus. A humildade da ancilla Domini (Lc 1, 38), da escrava do Senhor, é a razão pela qual a invocamos como causa nostrae laetitiae, como causa da nossa alegria [...]. Maria, ao confessar-se escrava do Senhor, é feita Mãe do Verbo divino e enche-se de júbilo. Que este seu júbilo, de Mãe boa, nos contagie a todos nós: que nisto saiamos a Ela – a Santa Maria –, e assim nos pareceremos mais com Cristo”16.

(1) Sl 23, 7; Antífona de entrada da Missa do dia 22 de dezembro; (2) Lc 1, 44; (3) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Caminho, n. 507; (4) cfr. Santa Teresa,Sexta morada, c. 10 b.; (5) João Paulo II, Angelus, 4-III-1979; (6) 1 Cor 1, 4; (7) cfr. Mt 18, 23-35; (8) João Pecci (Leão XIII), Prática da humildade, 56; (9) Santo Cura D’Ars, Sermão sobre a humildade; (10) Santo Agostinho, Sobre a virgindade, 51; (11) São Francisco de Sales, Epistolário, fragm. 17, vol. II, pág. 651; (12) Lc 14, 7 e segs.; (13) São Tomás, Suma Teológica, 2-2, q. 131; (14) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, cfr. Caminho, n. 442; (15) Lc 22, 27; (16) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 109.



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