Meditação diária de Falar com Deus, Francisco Fernández Carvajal
Website de Francisco Fernández Carvajal

Sábado, 23 de Agosto de 2014 





Bookmark and Share
Dia anterior
Dia seguinte
Leituras do dia
Evangelho Dia
Obras
Editoriais






Meditação diária de Falar com Deus

TEMPO COMUM. VIGÉSIMA SEMANA. SÁBADO

72. FAZER E ENSINAR

– Dar exemplo com a nossa vida. Temos de mostrar com as nossas obras que Cristo vive.

– Jesus começou a fazer e a ensinar. O testemunho das obras bem feitas e da caridade com todos.

– Só o exemplo não basta: é preciso dar doutrina, aproveitando todas as ocasiões e criando‑as.

I. LEMOS NO EVANGELHO da Missa1 que o Senhor previne os seus discípulos contra os escribas e fariseus, que se tinham sentado na cátedra de Moisés e ensinavam ao povo as Escrituras, mas levavam uma vida nada condizente com o que ensinavam: Observai, pois, e fazei tudo o que eles vos disserem; mas não imiteis as suas ações, porque dizem e não fazem. E comenta São João Crisóstomo: “Há coisa mais triste do que um mestre, quando o único modo de salvar os seus discípulos é dizer‑lhes que não olhem para a vida daquele que lhes fala?”2

O Senhor pede a todos uma vida exemplar no meio dos afãs diários e de um apostolado fecundo. Observamos ao nosso redor muitos exemplos admiráveis de santidade, mas temos de rezar para que os governantes, as pessoas de influência, os pais de família, os professores, os sacerdotes e todos os cristãos que de alguma maneira devem ser bons pastores para os outros, sejam cada dia mais santos. O mundo necessita de exemplos vivos.

Em Jesus Cristo dá‑se a plenitude da unidade de vida, a mais profunda união entre as palavras e as obras. As suas palavras expressam a medida das suas obras, que são sempre maravilhosas e perfeitas. Hoje vimos coisas maravilhosas3, diz a multidão depois de Ele ter perdoado os pecados do paralítico e de o ter curado. Os próprios fariseus exclamavam no seu desconcerto: Que faremos? Este homem faz muitos milagres4. Mas eles rejeitaram o testemunho que as obras do Senhor proclamavam e tornaram‑se culpados: Se eu não tivesse feito entre eles o que nenhum outro fez, não teriam culpa5. Em outras ocasiões tinha‑os convidado a crer em virtude das obras que todos o tinham visto fazer: Crede ao menos por causa das minhas obras6. O Senhor considera as suas obras como um modo de dar a conhecer a sua doutrina: Estas mesmas obras que faço dão testemunho de mim7. As suas ações e palavras, tanto na sua vida oculta em Nazaré como no seu ministério público, proclamam a verdade única da Revelação.

É com as obras da nossa vida diária, praticadas com heroísmo, que temos de mostrar a todos que Cristo vive. A vocação de apóstolo – e todos nós a recebemos no momento em que fomos batizados – é a de dar testemunho, com obras e palavras, da vida e doutrina de Cristo: “Vede como se amam”, diziam os romanos dos primeiros cristãos. E as pessoas ficavam edificadas com essa conduta, e os Atos dos Apóstolos contam‑nos que eles eram vistos com simpatia por todo o povo8. E como conseqüência, o Senhor aumentava cada dia mais o número dos que se haviam de salvar9.

Muitos deram o supremo testemunho da fé que professavam mediante o martírio. E até esse extremo temos nós de estar dispostos a chegar, se o Senhor no‑lo pede. O mártir, na sua aparente loucura, transformava‑se para todos numa força poderosa que conduzia a Cristo: muitos convertiam‑se ao verem a serenidade e a alegria com que os primeiros cristãos caminhavam para a morte. Daí o nome de mártir, que significa testemunha de Cristo.

Ordinariamente, o Senhor pede de nós esse mesmo testemunho, mas no meio da vida corrente, absorvidos em afazeres similares aos que os outros realizam. “Temos que conduzir‑nos de tal maneira que, ao ver‑nos, os outros possam dizer: este é cristão porque não odeia, porque sabe compreender, porque não é fanático, porque está acima dos instintos, porque é sacrificado, porque manifesta sentimentos de paz, porque ama”10. Temos que dar este testemunho da nossa fé com o garbo e o heroísmo radical dos primeiros mártires da era cristã.

II. O AMOR PEDE OBRAS: coepit Iesus facere et docere11, Jesus começou a fazer e a ensinar; Ele “proclamou o Reino do Pai, quer pelo testemunho da sua vida, quer pela força da sua palavra”12. Não se limitou a falar nem quis ser somente o Mestre que ilumina com uma doutrina maravilhosa; pelo contrário, “«coepit facere et docere» – Jesus começou a fazer e depois a ensinar: tu e eu temos que dar o testemunho do exemplo, porque não podemos levar uma dupla vida; não podemos ensinar o que não praticamos. Por outras palavras, temos de ensinar aquilo que, pelo menos, lutamos por praticar”13.

O Senhor, nos seus longos anos de trabalho em Nazaré, ensina‑nos o valor redentor do trabalho e anima‑nos a alcançar o maior prestígio possível dentro da nossa profissão ou estudo: pede‑nos um trabalho bem acabado, intenso, ordenado, sempre pontual, e que tenha essas características por ser executado na sua presença.

Devemos imitá‑lo principalmente na forma de tratar a todos. A caridade foi o sinal distintivo que o Senhor nos deixou, e é por ela que nos reconhecerão como discípulos de Cristo: Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros14. Junto com o prestígio profissional, é, além disso, o meio imprescindível de sermos eficazes no apostolado.

Devemos também refletir a sua doutrina no modo sobrenatural com que procuramos enfrentar a doença que se apresenta quando menos a esperávamos, nas situações de aperto econômico, se o Senhor o permite..., no modo de nos distrairmos e na alegria habitual, mesmo que nos custe muito sorrir. Cristo será o maior motivo do cristão para estar sempre alegre. E essa alegria – fruto da paz da alma – será um sinal convincente de que Cristo vive:

“Antes de tentarmos fazer santos todos aqueles a quem amamos, é preciso que os tornemos felizes e alegres: nada prepara melhor a alma para a graça do que a alegria.

“Sabes perfeitamente [...] que, quando tens entre as mãos os corações daqueles que queres tornar melhores e os sabes atrair com a mansidão de Cristo, já percorreste metade do teu caminho apostólico. Quando te têm afeto e confiam em ti, quando se mostram contentes, o terreno está preparado para a sementeira. Os seus corações abrem‑se, como terra boa, para receberem o branco trigo da tua palavra de apóstolo, de educador [...].

“Nunca percamos de vista que o Senhor prometeu a sua eficácia às caras alegres, aos modos afáveis e cordiais, à palavra clara e persuasiva que dirige e forma sem magoar: Bem‑aventurados os mansos porque possuirão a terra. Não devemos esquecer nunca que somos homens que tratam com outros homens, mesmo quando queremos fazer bem às almas. Não somos anjos. E por isso a nossa fisionomia, o nosso sorriso, os nossos modos são elementos que condicionam a eficácia do nosso apostolado”15.

O bom exemplo, consequência de uma autêntica vida de fé, sempre arrasta. Não se trata de dar testemunho de nós mesmos, mas do Senhor. É preciso atuar de tal maneira que, “através das ações do discípulo, se possa descobrir o rosto do Mestre”16, e que possamos dizer como São Paulo: Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo17.

III. FAZER E ENSINAR, exemplo e doutrina. “Não basta fazer para ensinar – escreve São João Crisóstomo –; e isto não sou eu quem o diz, mas o próprio Cristo: Quem fizer e ensinar – diz – será chamado grande (Mt 5, 19). Se o mero fazer fosse ensinar, a segunda parte do ensinamento do Senhor seria supérflua, pois bastaria dizer: Quem fizer; ao distinguir as duas coisas, dá‑nos a entender que, na perfeita edificação das almas, as obras têm a sua parte e as palavras a sua, e que uma e outra se requerem mutuamente”18.

Não se trata de coisas contrapostas nem separadas: falar é um sinal, uma notícia de Cristo; e viver também é um sinal, um modo de ensinar, que confirma a veracidade do primeiro. O apostolado “não consiste somente no testemunho de vida; o verdadeiro apóstolo procura ocasiões para anunciar Cristo com a palavra, quer aos não crentes para levá‑los à fé, quer aos fiéis para instruí‑los, confirmá‑los e estimulá‑los a uma vida mais santa”19. Que pode significar para um pagão a boa conduta de um cristão, se não lhe fala do tesouro que encontrou? Não damos exemplo de nós mesmos, mas de Cristo. Somos suas testemunhas no mundo; e uma testemunha não o é de si mesma: dá testemunho de uma verdade ou de uns acontecimentos que deve ensinar. Viver a fé e proclamar a sua doutrina é o que Jesus nos pede.

Se procurarmos ao longo dos dias as menores ocasiões de falar, não desperdiçando uma única oportunidade que se nos apresente, faremos com que o Senhor seja conhecido. A nossa tarefa consiste, em boa parte, em tornar alegre e amável o caminho que conduz a Cristo. E chegaremos a consegui‑lo se nos empenharmos em formar um pequeno rebanho de amigos que seja objeto da nossa solicitude apostólica constante. Com a freqüência oportuna, falaremos a esses amigos da maravilha que é descobrir em Cristo o resumo e o ápice de todos os ideais, da paz, da segurança e da eficácia que se obtêm quando nos propomos imitá‑lo e segui‑lo de perto.

Quando aquela mulher do povo, maravilhada com a doutrina de Jesus, elogia a Mãe do Senhor, Jesus responde: Bem‑aventurados antes aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática20. Ninguém cumpriu essa recomendação do Senhor como Maria Santíssima; a Ela, que é para nós exemplo amável de todas as virtudes, nos confiamos para cumprirmos os nossos propósitos de dar exemplo na conduta diária. E confiamos‑lhe também a nossa decisão de falar simples e destemidamente de Deus aos nossos amigos, como Ela falou ao dirigir‑se ao servos das bodas de Canã: Fazei o que Ele vos disser21. Porque é isso em última análise o que temos de acabar por dizer, de uma maneira ou de outra, passo a passo, aos nossos colegas e amigos.

(1) Mt 23, 1‑12; (2) São João Crisóstomo, Homilias sobre São Mateus, 72, 1; (3) Lc 5, 26; (4) Jo 11, 47; (5) Jo 15, 24; (6) Jo 14, 11; (7) Jo 5, 36; (8) At 2, 47; (9) ib.; (10) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 122; (11) At 1, 1; (12) Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, 35; (13) Josemaría Escrivá, Forja, n. 694; (14) Jo 13, 35; (15) S. Canals, Reflexões espirituais, 3ª ed., Quadrante, São Paulo, 1988, págs. 56‑57; (16) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 105; (17) 1 Cor 4, 16; (18) São João Crisóstomo, Sobre o sacerdócio, 4, 8; (19) Conc. Vat. II, Decr. Apostolicam actuositatem, 6; (20) Lc 11, 28; (21) Jo 2, 5.



Webmaster mail    Languages:   Deutsch   English   Español   Français   Italiano   Latviešu   Nederlands   Polski   Português   Slovenčina   Русский    Bookmark and Share