Meditação diária

TEMPO COMUM. VIGÉSIMO OITAVO DOMINGO. CICLO A

37. OS CONVIDADOS AO BANQUETE

– O Céu espera-nos. Correspondência à chamada do Senhor. Ajudar os outros a não recusar o convite.

– O convite para participarmos da intimidade divina. Não existem desculpas razoáveis para não comparecermos à Ceia do Rei.

– Vontade salvífica de Cristo. As nossas ânsias apostólicas devem abarcar todas as almas.

I. A LITURGIA DESTE DOMINGO fala-nos do banquete régio, símbolo da salvação e de todos os bens, a que Deus nos convida. E o Senhor dos exércitos preparará neste monte para todos os povos fiéis um banquete de manjares deliciosos… E neste monte quebrará os laços que atam todos os povos… Aniquilará a morte para sempre; e o Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces1.

Por meio de símbolos facilmente compreensíveis, os Profetas tinham anunciado o Céu como o destino definitivo da humanidade. O próprio Deus nos conduziria até esse monte santo. Assim o expressa o Salmo responsorial: O Senhor é meu pastor…, conduz-me junto às águas refrescantes; reconforta a minha alma, guia-me por veredas retas… Ainda que eu ande por um vale tenebroso, nada temerei, porque tu vais comigo. A tua vara e o teu báculo são o meu consolo. A tua bondade e a tua graça acompanham-me todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do Senhor por anos sem fim2.

Jesus é o nosso Pastor e convida-nos de mil maneiras a segui-lo, mas não quer obrigar-nos a acompanhá-lo contra a nossa vontade. Nisto consiste o mistério do mal: os homens podem recusar esse convite. O Evangelho da Missa3 fala-nos dessa recusa. O reino dos céus é semelhante a um rei que celebrou as bodas de seu filho. E, segundo o costume, mandou os seus servos a casa dos convidados para recordar-lhes que já estava tudo preparado e que os esperava. Para sua surpresa, os convidados não quiseram ir. E o Senhor, desejando expressar a solicitude de Deus para com os seus filhos, relata na parábola que o soberano tornou a enviar os seus servidores: Enviou de novo outros servos, ordenando-lhes: Dizei aos convidados: Vede que o meu banquete está preparado… A bondade de Deus fica patente nesta divina insistência e na exuberância das iguarias: Os meus novilhos e animais cevados já foram abatidos e tudo está pronto.

Apesar disso, os convidados não fizeram caso e foram um para a sua casa de campo, outro para os seus negócios. Outros lançaram mão dos servos e, depois de os terem maltratado, mataram-nos. Em outras parábolas (a dos vinhateiros, por exemplo), exigia-se algo devido, o fruto daquilo que se tinha confiado a uns homens para que o administrassem; aqui, no entanto, nada se exige…, tudo é oferecido. E é rejeitado! Jesus deve ter relatado esta parábola com muita pena. É a recusa ao amor de Deus através dos séculos.

Os convidados podem estar representados hoje, entre outros, por esses homens que, absorvidos nos seus assuntos e negócios terrenos, parecem não necessitar de Deus para nada. E quando são avisados de que o Céu os espera, reagem com violência, como na parábola. Apesar de tudo, temos a santa obrigação de aproximar-nos deles, “de sacudi-los da sua modorra, de rasgar horizontes diferentes e amplos à sua existência aburguesada e egoísta, de lhes complicar santamente a vida, de fazer que se esqueçam de si mesmos e compreendam os problemas dos outros. Senão, não és bom irmão dos teus irmãos, os homens, que estão precisados desse «gaudium cum pace» – desta alegria e desta paz, que talvez não conheçam ou tenham esquecido”4.

Muitos corresponderão e chegarão a tempo ao banquete.

II. A IMAGEM DO BANQUETE é considerada em outros lugares da Sagrada Escritura como símbolo de intimidade e de salvação. Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz, e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo5. A solicitude de Deus, a sua ânsia de uma maior intimidade com cada homem, bate-lhe à porta constantemente. Abre-me, minha irmã, minha amiga…, porque a minha cabeça está cheia de orvalho, e os cachos dos meus cabelos cheios de gotas da noite6, diz Deus à alma de tantas maneiras. Como é a nossa correspondência às mil chamadas que o Senhor nos faz chegar? Como é a nossa oração, que nos franqueia a intimidade com Deus? Não nos esquivamos com desculpas fáceis a um compromisso que nos convida a um amor mais firme, a uma correspondência mais profunda?

Rejeitar o convite divino é algo muito grave; viver como se Deus não tivesse importância e o encontro com Ele estivesse tão distante que não valesse a pena preparar-se para ele, é pôr em risco a salvação eterna. Perante a salvação, bem absoluto, não há nenhuma desculpa que seja razoável: nem campos, nem negócios, nem saúde, nem bem-estar… Hoje, os pretextos que alguns invocam para não atender aos amáveis convites do Senhor são iguais ou parecidos aos que lemos na parábola. De qualquer modo, “o fato continua a ser o mesmo: não aceitam a salvação de Deus e excluem-se dela voluntariamente por preferirem outra coisa. Ficam com o que escolhem, perdem o que rejeitam”7.

Mas o Senhor quer que a sua casa fique cheia; a sua atitude é sempre salvadora: Ide, pois, às encruzilhadas dos caminhos, e a quantos encontrardes, convidai-os para as núpcias. Os servos saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, maus e bons. Ninguém é excluído da intimidade divina. Só fica de fora aquele que se afasta por vontade própria, aquele que resiste ao amável convite do Senhor, insistentemente repetido.

“Ajuda-nos, Senhor – exclamava Santo Agostinho –, a deixar-nos de desculpas más e vãs e a comparecer a esse banquete… Que a soberba não seja impedimento para irmos ao festim, que não nos emproemos com jactância, nem uma má curiosidade nos apegue à terra, distanciando-nos de Deus, nem a sensualidade estorve as delícias do coração. Faz que compareçamos… Quem se apresentou ao banquete a não ser os mendigos, os doentes, os coxos, os cegos? […] Iremos como pobres, pois convida-nos Aquele que, sendo rico, se fez pobre por nós. Iremos como doentes, porque não precisam de médico os sãos, mas os que não estão bem de saúde. Iremos como aleijados e diremos: Endireita os meus passos conforme a tua palavra (Sl 118, 113). Iremos como cegos e te pediremos: Ilumina os meus olhos para que jamais durma na morte (Sl 12, 4)”8.

III. IDE, POIS, às encruzilhadas dos caminhos, e a quantos encontrardes, convidai-os para as núpcias… São palavras dirigidas a nós, a todos os cristãos, pois a vontade salvífica de Deus é universal9; abarca todos os homens de todas as épocas. Cristo, no seu amor pelos homens, procura com paciência infinita a conversão de cada alma, chegando ao extremo de morrer na Cruz. Cada homem pode dizer de Jesus: Amou-me e entregou-se a si mesmo por mim10.

Desta atitude salvadora do Mestre participamos todos os que desejamos ser seus discípulos. Os servos saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram… Devemos empenhar-nos, como Cristo, na salvação de todas as almas. Não podemos desinteressar-nos de ninguém. Não podemos encolher-nos medrosamente diante dos que se mostram muito ocupados e aparentemente felizes nas suas coisas, como se não precisassem de nada, e muito menos de Deus, do festim eterno que Ele lhes oferece. “Repara bem: há muitos homens e mulheres no mundo, e nem um só deles deixa o Mestre de chamar. Chama-os a uma vida cristã, a uma vida de santidade, a uma vida de eleição, a uma vida eterna”11.

Temos de sentir toda a urgência de levar as almas, uma a uma, até o Senhor. A mesma solicitude com que Cristo nos anima e conforta é a que devemos ter em relação àqueles com quem convivemos diariamente, seguindo o conselho que nos vem do século II: “Leva a todos sobre ti, como a ti te leva o Senhor”12.

Temos de abrir novos horizontes a muitas existências, tantas vezes fechadas numas aspirações puramente terrenas, curtas; descobrir-lhes a necessidade de procurar Deus com confiança, de conversar com Ele como se conversa com um amigo; ensiná-los a trabalhar por Deus, oferecendo-lhe freqüentemente as suas ocupações para que ganhem sentido e nobreza; ajudá-los a encontrar a raiz de muitas das suas vacilações, do vazio interior que às vezes experimentam… Ninguém deve passar ao nosso lado sem que as nossas palavras e as nossas obras lhe falem de Deus. O pensamento da sua salvação eterna e da sua felicidade temporal – que não alcançarão à margem de Deus – animar-nos-á a procurar todas as ocasiões – sem medo de sermos inoportunos, mas sempre amavelmente – para que, com paciência, a chamada do Senhor chegue até eles. A sua ignorância religiosa e a sua visão pobre e terrena das coisas deve doer-nos.

A Virgem Nossa Senhora ensinar-nos-á a tratar cada pessoa com o afeto com que Ela olha para o seu Filho, pois todas essas pessoas com quem estamos em relação são filhos de Deus, filhos de Santa Maria.

(1) Is 25, 6-10; Primeira leitura da Missa do vigésimo oitavo domingo do Tempo Comum, ciclo A; (2) Sl 22, 1-6; Salmo responsorial da Missa do vigésimo oitavo domingo do Tempo Comum, ciclo A; (3) Mt 22, 1-14; (4) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Forja, n. 900; (5) Apoc 3, 20; (6) Cânt 5, 2; (7) Federico Suaréz, Después, Rialp, Madrid, 1978, pág. 172; (8) Santo Agostinho, Sermão 112, 8; (9) cfr. 1 Tim 2, 4; (10) Gál 2, 20; (11) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Forja, n. 13; (12) Santo Inácio de Antioquia, Epístola a Policarpo, 1, 2.