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TEMPO COMUM. VIGÉSIMO QUINTO DOMINGO. CICLO A

10. A VINHA DO SENHOR

– Os planos de Deus. A honra de trabalhar na sua vinha.

– Na vinha do Senhor, há lugar e trabalho para todos.

– Sentido positivo das circunstâncias que rodeiam a nossa vida. Aí, e não em outro lugar, o Senhor quer que nos santifiquemos e que realizemos um apostolado fecundo.

I. NA VIDA DAS PESSOAS, dão‑se momentos particulares em que Deus concede graças especiais para encontrá‑lo. A iminência do retorno do Povo eleito à terra de Israel foi um desses momentos privilegiados.

Muitos hebreus contentavam‑se com a possibilidade de voltar a ver a cidade santa, Jerusalém; essa era toda a sua esperança e alegria. Mas Deus queria mais, pedia o abandono do pecado, a conversão do coração. Por isso apregoa por boca do profeta Isaías, conforme lemos na primeira Leitura da Missa1: Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos; nem os vossos caminhos são os meus caminhos... Porque, assim como os céus estão mais alto do que a terra, assim os meus caminhos se elevam acima dos vossos caminhos, e os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos. Quantas vezes ficamos aquém das maravilhas que Deus nos preparou! Quantas vezes os nossos planos se revelam tão estreitos!

Nos textos da Liturgia da Missa deste domingo, a Igreja recorda‑nos o mistério da sabedoria de Deus, sempre unida a anseios redentores: Eu sou a salvação do povo, diz o Senhor: se me invocarem na tribulação, eu os ouvirei e serei sempre o seu Senhor2. E, no Evangelho3, Deus quer que consideremos como esses planos redentores estão intimamente relacionados com o trabalho na sua vinha, sejam quais forem as circunstâncias e a idade em que Deus se tenha aproximado de nós e nos tenha chamado. O reino dos céus é semelhante a um pai de família que, ao romper da manhã, saiu a contratar operários para a sua vinha. Como eram necessários mais braços, tornou a sair em outras ocasiões, desde as primeiras horas da manhã até o entardecer, em busca de mais operários. No fim do dia, todos receberam o mesmo pagamento: um denário. Então, os que tinham trabalhado desde o começo do dia protestaram ao verem que os últimos recebiam o mesmo salário que eles. Mas o dono da vinha respondeu‑lhes: Amigo, eu não te faço nenhuma injustiça; não ajustaste tu comigo um denário? Quero dar a este último tanto como a ti. Ou não me é lícito fazer dos meus bens o que quero?

O Senhor não deseja dar‑nos aqui uma lição de moral salarial ou profissional, mas sublinhar que, no mundo da graça, tudo é um puro dom, mesmo o que parece ser um direito que nos assiste pelas nossas boas obras. Aquele que foi chamado ao amanhecer, nos começos da sua vida, não pode arrogar‑se maiores direitos do que aquele que o foi na maturidade ou talvez na última quadra da sua vida, no crepúsculo. E estes últimos não devem desanimar pensando que talvez já seja demasiado tarde. Para todos o pagamento deve‑se à misericórdia divina, e é sempre imenso e sem proporção com o que se tenha trabalhado na terra a serviço do Senhor. A grandeza dos planos divinos está sempre acima dos nossos juízos humanos, que são de um alcance muito estreito.

Os que fomos chamados a diferentes horas para trabalhar na vinha do Senhor, só temos motivos de agradecimento. A chamada, em si mesma, já é uma honra. “Não há ninguém – afirma São Bernardo – que, por pouco que reflita, não encontre em si mesmo poderosos motivos que o obriguem a mostrar‑se agradecido a Deus. E especialmente nós, porque o Senhor nos escolheu para si e nos guardou para o servirmos somente a Ele”4.

II. IDE VÓS TAMBÉM para a minha vinha.

Entre os males que afligem a humanidade, há um que se destaca particularmente: o número terrivelmente pequeno de pessoas que conhecem de verdade a pessoa de Cristo e mantêm com Ele um trato de autêntica intimidade; muitos talvez morram sem saber que Cristo vive e que traz a salvação a todos. De que haja em nós um empenho sério, dependerá em boa parte que muitos o procurem e encontrem: “O trabalho que nos espera na vinha do Senhor é tanto! O «dono da casa» insiste com mais energia no seu convite: Ide vós também para a minha vinha5.

Podemos permanecer indiferentes diante de tantos que não conhecem a figura de Cristo? “Que cada um examine o que faz – exorta São Gregório Magno – e veja se já trabalha na vinha do Senhor. Porque aquele que nesta vida só procura o seu próprio interesse ainda não entrou na vinha do Senhor. Pois para Ele trabalham [...] os que se desvelam em ganhar almas e se apressam a levar outros à vinha”6.

No campo do Senhor, há trabalho para todos: sejam jovens ou velhos, ricos ou pobres, homens ou mulheres, estejam na plenitude da vida ou bem próximos do anoitecer, disponham ou não de tempo livre, tenham ou não de fazer grandes esforços e sacrifícios para estar diariamente com a família... Até as crianças, afirma o Concílio Vaticano II, “têm a sua própria capacidade apostólica”7, e que fecundidade a do seu apostolado em tantas ocasiões! E os doentes, quanto bem podem realizar! “Por conseguinte, impõe‑se a todos os cristãos a dulcíssima obrigação de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens de qualquer lugar da terra”8.

Deus não chega nem demasiado cedo nem demasiado tarde às nossas vidas. O que Ele quer é que, a partir do momento em que nos visitou na sua misericórdia, nos sintamos verdadeiramente comprometidos a trabalhar na sua vinha, com todas as forças e com todo o entusiasmo, sem nos esquivarmos com promessas futuras nem desanimarmos com o tempo perdido.

III. O PAPA JOÃO PAULO II, comentando esta parábola9, convidava a encarar de frente este nosso mundo com as suas inquietações e esperanças: um mundo – acrescentava o Pontífice – cujas circunstâncias econômicas, sociais, políticas e culturais apresentam problemas e dificuldades mais graves do que as que foram descritas pelo Concílio Vaticano II num dos seus documentos10. “Seja como for – comentava o Papa –, esta é a vinha e este é o campo em que os fiéis leigos estão chamados a viver a sua missão. Jesus quer que sejam sal da terra e luz do mundo, como todos os seus discípulos (cfr. Mt 5, 13‑14)”.

Não são gratas ao Senhor as queixas estéreis – que revelam falta de fé – ou mesmo um sentido negativo e cético do ambiente que nos rodeia. Esta é a vinha e este é o campo em que o Senhor quer que estejamos, inseridos nessa sociedade que apresenta os seus valores e deficiências. É na nossa própria família – e não em outra – que devemos santificar‑nos, e é essa família que devemos levar a Deus; é o trabalho que nos espera hoje, na Universidade ou no escritório, e não outro, que devemos converter em trabalho de Deus... Esta é a vinha do Senhor, onde Ele quer que trabalhemos sem falsas desculpas, sem saudosismos, sem exorbitar as dificuldades, sem esperar oportunidades melhores.

Para levarmos a cabo este apostolado, temos todas as graças necessárias. É nisto que se fundamenta todo o nosso otimismo. “Deus chama‑me e envia‑me como trabalhador para a sua vinha; chama‑me e envia‑me a trabalhar para o advento do seu Reino na história: esta vocação e missão pessoal define a dignidade e a responsabilidade de cada fiel leigo e constitui o ponto forte de toda a ação formativa [...].

“Com efeito, Deus, na eternidade, pensou em nós e amou‑nos como pessoas únicas e irrepetíveis, chamando‑nos a cada um de nós pelo nosso próprio nome, como o bom Pastor chama pelo nome as suas ovelhas (Jo 10, 3)”11. Em cada jornada, somos chamados por Deus para levar a cabo os seus planos de redenção; em cada situação, recebemos ajudas sobrenaturais eficazes para que as circunstâncias que nos rodeiam nos sirvam de motivo para amar mais a Deus e para realizar um apostolado fecundo.

São Paulo, na segunda Leitura da Missa12, escreve aos cristãos de Filipos: ... Não sei o que escolher. Encontro‑me nesta alternativa: por um lado, desejo ser desatado da carne para estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor; por outro, vejo que permanecer nesta vida é mais necessário, por causa de vós. Tanta era a sua esperança em Cristo, tanto o seu amor por aqueles primeiros cristãos que tinha levado à fé!

Paulo escreve num momento em que estava preso e sofria por causa daqueles que, por espírito de rivalidade, queriam dificultar a sua obra. Mas isso não lhe tirou a paz e a serenidade, e o Apóstolo não deixou de continuar a trabalhar na vinha do Senhor com os meios de que dispunha. Rejeitemos o pessimismo e a tristeza, se alguma vez não obtemos o resultado que esperávamos.

“Não admitas o desalento no teu apostolado. Não fracassaste, como Jesus também não fracassou na Cruz. Ânimo!... Continua contra a corrente, protegido pelo Coração Materno e Puríssimo da Senhora: Sancta Maria, refugium nostrum et virtus! Tu és o meu refúgio e a minha fortaleza.

“Tranqüilo. Sereno... Deus tem muito poucos amigos na terra. Não te esquives ao peso dos dias, ainda que às vezes se nos tornem muito longos”13.

(1) Is 55, 6‑9; (2) Antífona de entrada da Missa do 25º domingo do Tempo Comum, ciclo A; (3) Mt 20, 1‑16; (4) São Bernardo, Sermão 2, para o IV Domingo depois de Pentecostes, 1; (5) João Paulo II, Exortação Apostólica Christifideles laici, 30.12.88, 3; (6) São Gregório Magno, Homilias sobre o Evangelho, 19, 2; (7) Concílio Vaticano II, Decreto Apostolicam actuositatem, 12; (8) ibid., 3; (9) cfr. João Paulo II, Exortação Apostólica Christifideles laici, 3; (10) cfr. Concílio Vaticano II, Constituição Gaudium et spes; (11) João Paulo II, Exortação Apostólica Christifideles laici, 58; (12) Fil 1, 20‑24; 27; (13) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Via Sacra, 2ª ed., Quadrante, São Paulo, 1981, XIIIª est., n. 3.

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