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TEMPO COMUM. TRIGÉSIMO DOMINGO. CICLO B

56. É CRISTO QUE PASSA

– Nas nossas fraquezas e dores, recorrer ao Senhor.

– A misericórdia do Senhor. Bartimeu.

– A alegria messiânica.

I. DEUS PASSA pela vida dos homens dando luz e alegria. A primeira Leitura1 é um grito de júbilo pela salvação do resto de Israel, pelo seu regresso do cativeiro à terra de origem. Todos retornam: os paralíticos e os doentes, os cegos e os coxos, que encontram a sua saúde no Senhor. Gritai de alegria por Jacó, regozijai-vos pelo melhor dos povos; proclamai, cantai e dizei: O Senhor salvou o seu povo, o resto de Israel. Eis que eu os trarei das terras do Norte... Entre eles há cegos e coxos... É grande a multidão dos que retornam. Depois de tantos padecimentos, o Profeta anuncia as bênçãos de Deus sobre o seu povo. Virão chorando de alegria..., eu os guiarei entre consolações e os levarei a arroios de água, por um caminho plano em que não tropeçarão.

Em Jesus cumprem-se todas as profecias. Passou pelo mundo fazendo o bem2, mesmo a quem nada lhe pedia. NEle manifestou-se a plenitude da misericórdia divina. Nenhuma miséria separou Cristo dos homens: deu a vista aos cegos, curou os leprosos, fez andar os coxos e paralíticos, alimentou uma multidão faminta, expulsou demônios..., aproximou-se daqueles que mais sofriam na alma e no corpo. “Éramos nós que tínhamos que ir a Jesus; mas interpunha-se um duplo obstáculo. Os nossos olhos estavam cegos [...]. Jazíamos paralíticos na nossa maca, incapazes de alcançar a grandeza de Deus. Por isso o nosso amável Salvador e Médico das nossas almas desceu das alturas”3.

Nós, que andamos com tantas doenças, “temos de crer com fé firme nAquele que nos salva, neste Médico divino que foi enviado precisamente para nos curar. E crer com tanto mais força quanto mais grave ou desesperada for a doença que tivermos”4. Existem ocasiões em que talvez experimentemos com mais força as nossas doenças: momentos em que a tentação é mais forte, em que sentimos o cansaço e a escuridão interior ou notamos mais vivamente a nossa fraqueza. Recorreremos então a Jesus, sempre perto de nós, com uma fé humilde e sincera, como a de tantos doentes e necessitados que aparecem no Evangelho. Diremos então ao Mestre:

“Senhor, não te fies de mim! Eu, sim, é que me fio de Ti. E ao vislumbrarmos na nossa alma o amor, a compaixão, a ternura com que Cristo Jesus nos olha – porque Ele não nos abandona –, compreenderemos em toda a sua profundidade as palavras do Apóstolo: Virtus in infirmitate perfici-tur (2 Cor 12, 9), a virtude se fortalece na fraqueza; com fé no Senhor, apesar das nossas misérias – ou melhor, com as nossas misérias –, seremos fiéis ao nosso Pai-Deus, e o poder divino brilhará, sustentando-nos no meio da nossa fraqueza”5.

Que segurança nos dá Cristo, com o seu olhar amabilíssimo pousado constantemente em nós!

II. O EVANGELHO DA MISSA6 relata-nos a passagem de Jesus pela cidade de Jericó e a cura de um cego, Bartimeu, que estava sentado à beira do caminho pedindo esmola. O Mestre deixa as últimas casas dessa cidade e continua o seu caminho em direção a Jerusalém. Nesse momento, Bartimeu ouve o ruído da pequena caravana que acompanha o Senhor. Ao ouvir que era Jesus Nazareno, começou a gritar e a dizer: Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!

Esse homem que vive na escuridão, mas sente ânsias de luz, de cura, compreendeu que aquela era a sua oportunidade: Jesus estava muito perto da sua vida. Quantos dias não tinha esperado por esse momento! O Mestre está agora ao alcance da sua voz! Por isso, se bem que o repreendiam para que se calasse, ele não lhes fez caso nenhum e cada vez gritava mais alto. Não podia perder aquela ocasião.

Que exemplo para a nossa vida! Cristo, que nunca deixa de estar ao alcance da nossa voz, da nossa oração, passa às vezes mais perto, para que nos atrevamos a chamá-lo com força. Timeo – comenta Santo Agostinho – Iesum transeuntem et non redeuntem, temo que Jesus passe e não volte7. Não podemos deixar que as graças passem como a água da chuva sobre a terra dura. Temos que gritar para Jesus muitas vezes – fazemo-lo agora no silêncio da nossa intimidade, numa oração inflamada –: Iesu, Fili David, miserere mei! Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!

Ao chamar por Ele, consolam-nos estas palavras de São Bernardo, que tornamos nossas: “O meu único mérito é a misericórdia do Senhor. Não serei pobre em méritos enquanto Ele não o for em misericórdia. E como a misericórdia do Senhor é abundante, abundantes são também os meus méritos”8.

Com esses méritos, acudimos a Ele: Iesu, fili David... Gritamos-lhe – afirma Santo Agostinho – com a oração e com as obras que devem acompanhá-la9. As boas obras, especialmente a caridade, o trabalho bem feito, a limpeza da alma através da Confissão contrita dos nossos pecados, dão o aval a esse clamor diante de Jesus que passa.

O cego, depois de vencer o obstáculo dos que estavam à sua volta, conseguiu o que tanto desejava. E Jesus, parando, mandou chamá-lo. Chamaram o cego e disseram-lhe: Tem confiança; levanta-te, ele chama-te. E ele, lançando fora a capa, levantou-se de um salto e foi ter com Jesus.

O Senhor tinha-o ouvido já da primeira vez, mas quis que Bartimeu nos desse um exemplo de insistência na oração, de perseverança até chegar à presença do Senhor. Agora já está diante dEle. “E imediatamente começa um diálogo divino, um diálogo maravilhoso, que comove, que abrasa, porque tu e eu somos agora Bartimeu. Da boca divina de Cristo sai uma pergunta: Quid tibi vis faciam? Que queres que te conceda? E o cego: Mestre, que eu veja (Mc 10, 51). Que coisa tão lógica! E tu, vês? Não te aconteceu já, em alguma ocasião, o mesmo que a esse cego de Jericó?

“Não posso deixar de recordar agora que, ao meditar nesta passagem, há já muitos anos, e ao compreender que Jesus esperava de mim alguma coisa – algo que eu não sabia o que era! –, fiz as minhas jaculatórias. Senhor, que queres? Que me pedes? Pressentia que me buscava para algo de novo, e aquele Rabonni, ut videam – Mestre, que eu veja – levou-me a suplicar a Cristo, numa oração contínua: Senhor, que se cumpra isso que Tu queres [...].

“Agora é contigo que Cristo fala. Ele te diz: Que queres de Mim? Que eu veja, Senhor, que eu veja! E Jesus: Vai, a tua fé te salvou. Nesse mesmo instante, começou a ver e seguia-o pelo caminho (Mc 10, 52). Segui-lo pelo caminho. Tu tiveste notícia daquilo que o Senhor te propunha e decidiste acompanhá-lo pelo caminho. Tu procuras pisar onde Ele pisou, vestir-te com as vestes de Cristo, ser o próprio Cristo. Pois então a tua fé – fé nessa luz que o Senhor te vai dando – deverá ser operativa e sacrificada. Não te iludas, não penses em descobrir formas novas. É assim a fé que Ele nos reclama: temos que andar ao seu ritmo, com obras cheias de generosidade, arrancando e largando tudo o que é estorvo”10.

III. QUANDO O SENHOR fazia regressar os cativos de Sião, parecia que sonhávamos. A nossa boca enchia-se de risos, e a nossa língua de cânticos de triunfo. Muda, Senhor, a nossa sorte, como as torrentes do Negueb. Os que semeiam entre lágrimas ceifarão com alegria11, lemos no Salmo responsorial.

Este salmo de júbilo recorda a felicidade dos israelitas ao terem notícia do decreto de Ciro que ordenava a repatriação do Povo eleito para a terra de seus pais, bem como a esperança que neles se reacendeu de poderem reconstruir o Templo e a Cidade Santa. Cantava-se nas peregrinações a Jerusalém, especialmente nas festas judaicas mais importantes. Por isso chamou-se a este salmo o Cântico da peregrinação.

O Negueb é um deserto ao sul da Palestina por onde, na estação chuvosa, desciam torrentes de água que o convertiam durante algum tempo num oásis. Assim também os cativos da Babilônia voltavam para Israel, despovoado e desértico, e pediam ao Senhor que o seu regresso renovasse a terra, que estabelecesse uma nova época cheia de bênçãos. As lágrimas que tinham ido derramando converteram-se em sementes de conversão e de arrependimento pelos pecados antigos que tinham motivado o castigo. E assim como aquele que semeia se cansa ao ir lançando as sementes com lágrimas, mas um dia voltará do campo trazendo as gavelas semeadas com dor, assim o Povo eleito foi semeando lágrimas reparadoras e volta agora trazendo espigas de gozo e de libertação12.

Este Salmo recorda a alegria messiânica, referida também na primeira Leitura. No Evangelho do dia, Bartimeu é fruto dessa salvação que já desponta e que terá a sua plenitude depois da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. Foram a cegueira de Bartimeu e a sua pobreza que o fizeram encontrar-se com Jesus e ver-se amplamente compensado de todos os seus pesares anteriores. A vida deste cego passou a ser completamente diferente a partir desse momento: et sequebatur eum in via..., e seguia-o pelo caminho. Agora Bartimeu é um discípulo que segue o Mestre.

As nossas dores – a nossa escuridão talvez – podem ser ocasião de um novo encontro com Jesus, motivo para o seguirmos de um modo novo – mais humildes, mais purificados – pelo caminho da vida, para nos convertermos em discípulos que o seguem mais de perto.

E então poderemos também dizer a muitas pessoas: Tem confiança; levanta-te, ele chama-te. “Naqueles tempos, narram os Evangelhos, o Senhor passava, e eles, os enfermos, chamavam por Ele e o procuravam. Também agora Cristo passa com a tua vida cristã e, se o secundares, quantos não o conhecerão, e chamarão por Ele, e lhe pedirão ajuda, e terão os olhos abertos para as luzes maravilhosas da graça!”13

Domine, ut videam! Senhor, que eu veja o que queres de mim. Domina, ut videam! Senhora, minha Mãe, que eu veja o que o teu Filho me pede agora, nestas circunstâncias, e que eu lho entregue.

(1) Jer 31, 7-9; (2) cfr. At 10, 38; (3) São Bernardo, Sermão do I Domingo do Advento, 78; (4) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 193; (5) ibid., n. 194; (6) Mc 10, 46-52; (7) cfr. Santo Agostinho, Sermão 88, 13; (8) São Bernardo, Sermão sobre o Cântico dos Cânticos, 61; (9) Santo Agostinho, Sermão 349, 5; (10) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, ns. 197-198; (11) Sl 125, 1-6; Salmo responsorial da Missa do trigésimo domingo do Tempo Comum, ciclo B; (12) cfr. D. de las Heras, Comentario ascético-teológico sobre los Salmos, pág. 325; (13) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Forja, n. 665.

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