Meditação diária

TEMPO COMUM. VIGÉSIMO SÉTIMO DOMINGO. CICLO A

28. NA VINHA DO AMADO

– Parábola da vinha.

– Os frutos amargos.

– Os frutos que Deus espera.

I. A LITURGIA DA MISSA, através de uma das mais belas alegorias, fala-nos do amor de Deus pelo seu povo e da falta de correspondência a esse amor. Na primeira Leitura1, lemos a chamada canção da vinha, que descreve Israel como uma plantação de Deus, tratada com todos os cuidados possíveis. Cantarei ao meu amado o cântico da vinha dos seus amores. O meu amado adquiriu uma vinha numa colina fertilíssima. Cavou-a, tirou dela as pedras e plantou-a com vides escolhidas. Edificou no meio dela uma torre e construiu um lagar. E esperava que desse boas uvas, mas produziu agraços.

Situada no melhor lugar, rodeada solicitamente dos melhores cuidados, era lógico que essa vinha desse bons frutos, mas produziu uvas amargas. Agora, pois, habitantes de Jerusalém e homens de Judá – continua o Profeta –, sede vós os juízes entre mim e a minha vinha. Que há que eu devesse fazer pela minha vinha que não o tivesse feito? Como é que, esperando que desse boas uvas, produziu agraços?

A Palestina era um lugar rico em vinhedos, e os Profetas do Antigo Testamento recorreram com freqüência a essa imagem, tão conhecida por todos, para falar do Povo eleito. Israel era a vinha de Deus, a obra do Senhor, a alegria do seu coração2: Eu tinha-te plantado como uma vinha escolhida, com sarmentos de boa qualidade3. A tua mãe era como uma vinha plantada junto das águas4… O próprio Senhor, como se lê no Evangelho da Missa5, referindo-se ao texto de Isaías, revela-nos a paciência de Deus, que manda os seus mensageiros – os Profetas do Antigo Testamento –, um após outro, em busca de frutos. Por fim, envia o seu Filho amado, o próprio Jesus, que os vinhateiros acabarão por matar: E, lançando-lhe as mãos, puseram-no fora da vinha e mataram-no. É uma referência clara à crucifixão, que teve lugar fora dos muros de Jerusalém.

A vinha é certamente Israel, que não correspondeu aos cuidados divinos; mas é também a Igreja, bem como cada um de nós: “Cristo é a verdadeira vide, que dá vida e fecundidade aos ramos, quer dizer, a nós que pela Igreja permanecemos nEle e sem Ele nada podemos fazer (Jo 15, 1-5)”6.

Meditemos hoje se o Senhor pode encontrar frutos abundantes na nossa vida; abundantes porque é muito o que nos foi dado. Frutos de caridade, de trabalho bem feito, de apostolado com os amigos e familiares; jaculatórias, atos de amor a Deus e de desagravo ao longo do dia, ações de graças, contrariedades acolhidas com paz, pequenos sacrifícios praticados discretamente e com toda a naturalidade. Examinemos também se, ao mesmo tempo, não produzimos essas uvas amargas que são os pecados, a tibieza, a mediocridade espiritual, as faltas de que não pedimos perdão ao Senhor…

II. HAVIA UM PAI de família que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe e cavou nela um lagar… “Cercou-a com uma sebe – comenta Santo Ambrósio –, isto é, defendeu-a com a muralha da proteção divina para que não sofresse facilmente pelas incursões das alimárias espirituais […]; e cavou um lagar onde fluísse, espiritualmente, o fruto da uva divina”7. Foram muitos os cuidados divinos que recebemos. A cerca, o lagar e a torre significam que Deus não economizou nada para cultivar e embelezar a sua vinha. Como é que, esperando que desse boas uvas, produziu agraços?

O pecado é o fruto amargo das nossas vidas. A experiência das fraquezas pessoais ressalta com demasiada evidência na história da humanidade e na de cada homem. “Ninguém se vê inteiramente livre da sua fraqueza, solidão ou servidão. Antes pelo contrário, todos precisam de Cristo modelo, mestre, libertador, salvador e vivificador”8. Os nossos pecados estão intimamente relacionados com essa morte do Filho amado, de Jesus. E, lançando-lhe as mãos, puseram-no fora da vinha e mataram-no.

Para produzirmos os frutos de vida que Deus espera diariamente de cada um de nós, temos em primeiro lugar de pedir ao Senhor e fomentar uma santa aversão por todas as faltas – mesmo veniais – que ofendem a Deus. Os descuidos na caridade, os juízos negativos sobre esta ou aquela pessoa, as impaciências, os agravos não esquecidos, a dispersão dos sentidos internos e externos, o trabalho mal feito…, “fazem muito mal à alma. – Por isso, «capite nobis vulpes parvulas, quae demoliuntur vineas», diz o Senhor no «Cântico dos Cânticos»: caçai as pequenas raposas que destroem a vinha”9. É necessário que nos empenhemos continuamente em afastar tudo aquilo que não é grato ao Senhor. A alma que detesta o pecado venial deliberado, pouco a pouco vai crescendo em delicadeza e em finura no trato com o Mestre.

As fraquezas devem ajudar-nos a multiplicar os atos de reparação e de desagravo, e a tornar sempre mais viva e sincera a contrição por essas faltas. Se pedimos perdão a uma pessoa querida quando a ofendemos, e procuramos compensá-la com algum ato bom, com quanto mais razão não devemos fazê-lo quando o ofendido é Jesus, o Amigo de verdade! Então Ele nos sorri e devolve a paz às nossas almas. Convertemos assim em frutos esplêndidos o que estava perdido.

“Pede ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, e à tua Mãe, que te façam conhecer-te e chorar por esse montão de coisas sujas que passaram por ti, deixando – ai! – tanto resíduo…

“E ao mesmo tempo, sem quereres afastar-te dessa consideração, diz-Lhe: – Dá-me, Jesus, um Amor qual fogueira de purificação, onde a minha pobre carne, o meu pobre coração, a minha pobre alma, o meu pobre corpo se consumam, limpando-se de todas as misérias terrenas… E, já vazio todo o meu eu, enche-o de Ti: que não me apegue a nada daqui de baixo; que sempre me sustente o Amor”10.

III. NA SEGUNDA LEITURA11, lemos estas palavras de São Paulo aos cristãos de Filipos: Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é santo, tudo o que é amável, tudo o que é de bom nome, qualquer virtude, qualquer coisa digna do louvor da disciplina, seja isso o objeto dos vossos pensamentos.

As realidades terrenas e as coisas nobres deste mundo são boas e podem chegar a ter um valor divino. Pois, como escrevia Santo Irineu, “pelo Verbo de Deus, tudo está sob a influência da obra redentora, e o Filho de Deus foi crucificado por todos, e traçou o sinal da Cruz sobre todas as coisas”12.

Devemos converter em frutos para Deus todos os assuntos que trazemos diariamente entre mãos (o trabalho, a família, a amizade, as preocupações que a vida ocasiona, as pequenas alegrias diárias…), pois “não se pode dizer que haja realidades – boas, nobres ou mesmo indiferentes – que sejam exclusivamente profanas, uma vez que o Verbo de Deus estabeleceu a sua morada entre os filhos dos homens, teve fome e sede, trabalhou com as suas mãos, conheceu a amizade e a obediência, experimentou a dor e a morte”13. Todas as coisas humanas nobres podem ser santificadas e oferecidas a Deus.

Cada jornada apresenta-se com incontáveis possibilidades de oferecer frutos agradáveis ao Senhor: desde a primeira vitória contra a preguiça ao levantar-nos pontualmente – o minuto heróico –, até esse pequeno sacrifício que supõe enfrentar com bom ânimo o excesso de trânsito ou um ligeiro mal-estar que nos deixa indispostos. São muitas, neste dia irrepetível, as ocasiões de sorrir, de ter uma palavra amável, de desculpar um erro… No trabalho, o Senhor espera esses pequenos frutos que nascem quando nos esforçamos por executá-lo bem: a pontualidade, a ordem, a intensidade, o cumprimento dos prazos…

Para produzirmos esses frutos, temos de empenhar-nos em manter a presença de Deus ao longo do dia, com jaculatórias, com atos de amor…, com um olhar dirigido a uma imagem da Virgem ou ao crucifixo…, lembrando-nos do Sacrário mais próximo do lugar em que estamos… Aquele que permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, porque, sem mim, nada podeis fazer… Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto e sejais meus discípulos14.

A nossa Mãe Santa Maria há de ensinar-nos a viver cada dia com a urgência de dar muitos frutos a Deus, e a evitar decididamente que cresçam em nossa vida os frutos amargos.

(1) Is 5, 1-7; (2) cfr. João Paulo II, Exortação Apostólica Christifideles laici, 30.12.88, 8; (3) Jer 2, 21; (4) Ez 19, 10; (5) Mt 21, 33-43; (6) Concílio Vaticano II, Constituição Lumen gentium, 6; (7) Santo Ambrósio, Comentário ao Evangelho de São Lucas, 20, 9; (8) Concílio Vaticano II, Decreto Ad gentes, 8; (9) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Caminho, n. 329; (10) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Forja, n. 41; (11) Fil 4, 6-9; (12) Santo Irineu, Demonstração da pregação apostólica; (13) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 112; (14) Jo 15, 5-8.